José Eduardo Vargas nasceu em Córdoba, Argentina, e é brasileiro naturalizado, residente no Brasil há quase 20 anos. Professor e pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR), é doutor em Biologia Celular e Molecular pela UFRGS.
Quando a vida permite, escreve contos publicados em coletâneas e periódicos literários. Entre eles estão “As sociedades das cuias”, destaque na coletânea Liga de Cromo e concorrente ao Prêmio Argos; “Lugar de resposta”, na antologia Anatomia de um Crime; e “O sentido da escrita”, na Revista Fluxos, nº 21.
Com “Amargo”, conquistou o terceiro lugar no Prêmio Villa Diodati – Prometeu Moderno 2026. Às vezes, assina como Pampa ou Ninguém do Sul.
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Um personagem não precisa dizer que está sofrendo: simplesmente sofre. Não precisa declarar que ama: demonstra isso por meio de gestos, atitudes e silêncios."
Escrever literatura é uma maneira de exteriorizar, por meio do texto, aquilo que poderia ser distorcido na linguagem falada. Quando uma mensagem ganha a forma de um personagem, ela adquire carne, cabelos, uma voz. Abre-se, assim, a porta para a humanidade.
Um personagem não precisa dizer que está sofrendo: simplesmente sofre. Não precisa declarar que ama: demonstra isso por meio de gestos, atitudes e silêncios.
Ao mesmo tempo, quem lê é convidado a escutar a si mesmo. É nesse ponto que escrever se torna uma necessidade. Independentemente da estética, a literatura é um veículo, uma oportunidade de dizer alguma coisa. É também um ato de rebeldia, especialmente nestes tempos em que, lamentavelmente, até o óbvio precisa ser defendido. É isso que me mantém escrevendo.
A pergunta foi: qual é o teatro moral aqui?
Em Amargo, imaginei um futuro em que a tecnologia permite reconstruir pessoas, editar lembranças e fabricar felicidades individuais. Mas o que realmente me interessava não era a tecnologia em si. Era o comportamento humano diante dela.
Até onde estamos dispostos a modificar a realidade para não sofrer? Quanto da nossa humanidade sacrificaríamos em troca de conforto? E, principalmente, quem são os verdadeiros responsáveis por uma sociedade que prefere uma mentira agradável a uma verdade incômoda?
O teatro moral do conto está justamente aí: os personagens não são apenas vítimas de um sistema. De alguma maneira, também participam de sua construção.
De Ana a Penélope, tudo existe, inclusive os gestos.
As imperfeições presentes no conto já estão aqui, nesta época, apenas com outros nomes: a impaciência, o medo, as contradições, a necessidade de amar e ser amado, a vontade de fugir daquilo que nos machuca.
Em Amargo, até os pequenos desentendimentos entre os personagens são importantes. Afinal, amar alguém não significa encontrar uma pessoa perfeita, mas aceitar aquilo que nela resiste à nossa vontade de modificá-la.
De certa maneira, todo o conto é real. Apenas me dei ao trabalho de travesti-lo com as roupas do imaginário.
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Até onde estamos dispostos a modificar a realidade para não sofrer? Quanto da nossa humanidade sacrificaríamos em troca de conforto?"
Sim. Às vezes, dá vontade de gritar, de escrever explicitamente quem são os tiranos do mundo e apontar todas as suas contradições. Mas, nesse momento, o conto corre o risco de se tornar panfletário.
Então, decidi que a tirania seria o contexto, não o centro da narrativa.
O protagonismo deveria pertencer àquilo que é verdadeiramente íntimo e humano: a saudade, o amor, a culpa, o medo e a dificuldade de aceitar nossas limitações. Afinal, a tecnologia não precisa inventar nossas contradições. Elas já existem.
Acho particularmente interessante a relação entre Frankenstein e as inquietações que deram origem a Amargo. Em ambos os casos, existe uma pergunta sobre os limites da criação humana e sobre nossa responsabilidade diante daquilo que criamos.
O que me interessa na ficção científica não é apenas imaginar tecnologias futuras, mas questionar o que elas revelam sobre nós mesmos.
O futuro não é mais do que uma consequência das escolhas de hoje. Somos os mesmos primatas de sempre, na busca de alguma verdade que nunca está muito clara. Humanos, ainda perdidos, inclusive em nossas próprias criações.
Todos nós seremos esquecidos. E aqueles que ainda se lembrarem de nós, por algum tempo, provavelmente guardarão uma imagem incompleta, construída a partir de alguns retalhos de nossos atos.
Talvez alguém diga um dia: “José era professor”. E pronto. Mas também fui filho, irmão, amigo, esposo. Gostava de tomar chimarrão no fim da tarde. Tive medos, alegrias, contradições e sonhos que dificilmente caberiam nessa pequena definição.
Não sou apenas aquilo que conquistei. Sou, na verdade, a consequência das escolhas que fiz, das possibilidades que elas abriram e das novas escolhas que vieram depois. Por sorte, fruto que sou da educação pública da Argentina e do Brasil, tive a chance de escolher. Mas, no fim, somos todos personagens secundários na vida de alguém.
Então, por que não escrever?
Quem sabe deixamos alguma lembrança para alguém encontrar, algum dia, em algum lugar. Talvez essa pessoa pense: “Olha, esse sujeito também escrevia contos”.
Há alguma vergonha nisso? Eu só vejo valor na vontade de deixar alguma coisa. Não é preciso ter certeza de que seremos grandes escritores. Talvez baste ter algo a dizer e coragem para assinar.
É um privilégio, especialmente depois de passar pelo crivo de pessoas que conhecem e se dedicam à literatura.
Venho de outra área, da ciência, onde a escrita costuma obedecer a regras bastante diferentes. Na literatura, encontro uma liberdade que nem sempre é possível no texto científico.
Por isso, receber esse reconhecimento tem um significado especial. É uma confirmação de que também posso me expressar por meio de outras linguagens.
E confesso que há um pensamento que me faz sorrir: “Olha, parece que ainda não perdi o jeito de escrever alguma coisa que não seja ciência”.
Estar entre esses autores é, acima de tudo, um incentivo para continuar escrevendo.
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Não é preciso ter certeza de que seremos grandes escritores. Talvez baste ter algo a dizer e coragem para assinar."